O Novo Cotidiano – Como é lidar com as mudanças do dia a dia num novo país

Tempo de leitura: 7 minutos

Quando eu pensava em viajar e morar fora, um dos meus principais receios bobos era fazer compras! Lidar com produtos e marcas diferentes de comida ou cosméticos. No Brasil já estamos habituados e sabemos qual marca é boa ou ruim, como eu saberia? Ou mesmo, será que encontraria os mesmos produtos? Que tipo de comida teria no supermercado?

Imaginava que seria um bicho de sete cabeças encontrar o que precisaria, decifrar marcas, termos e embalagens. E que todos os produtos seriam diferentes no supermercado. Me perguntava o que comiam por lá. Mal lembrava eu que vivemos no mesmo planeta, e de uma conhecida nossa chamada globalização.

Cheguei em Cape Town e encontrei o mesmo tomate, peito de frango, pimentão e carne moída que eu precisava pra viver. A primeira vez no mercado fiquei sim meio perdida. A primeira. Mas bastaram poucas vezes pra entender que alimentos eu encontraria, que alimentos não encontraria e os novos que passei a consumir e no Brasil não tem. Logo substituí minhas bases de preços e marcas brasileiras pelas novas, ou mantive algumas. Não foi assim tão difícil quanto parecia.

É estranho pensar que tudo que você conhece e tem como sua rotina irá mudar. Daí nasce o receio, do lidar com o desconhecido. Mas o escuro acaba sendo mais fantasiado e especulado do que de fato diferente ou desafiador.
Lembro que até tentei sair com certo “estoque” do Brasil. Pelo menos 2 desodorantes, um shampoo e condicionador grande, algumas lixas de unha, entre outros daqueles items que nos são in-dis-pen-sá-veis. Era a primeira vez que passaria um tempo maior fora do Brasil, suficiente pra precisar ir num mercado, farmácia, fazer compras ou repôr minhas coisas. E eu teria saído com muito mais se coubesse na mala!

Impressionante como temos receios tão tolos. Sabonetes, shampoo, condicionador e cosméticos simplesmente continuo usando as mesmas marcas que conheço do Brasil (Lux, Pantene, Dove, Neutrogena). Confesso que pra alguns produtos “cruciais” eu me aliviei em usar de multinacionais e não precisar caçar novos de qualidade. Mas outros são completamente indiferentes. Com o tempo acabamos usando um produto aqui outro ali e conhecendo marcas novas também.

Para marcas de comida é ainda mais fácil. Compro a mais barata, se é ruim da próxima vez compro outra. E rapidamente nos familiarizamos com algumas marcas que gostamos.

Não é um bicho de sete cabeças, definitivamente. Acho que nos preocupamos mais que o necessário quando o assunto é sair do conforto, do que conhecemos e estamos habituados. No final, entramos no mercado e fazemos as tais compras. Em pouco tempo nos acostumamos também com as redes de supermercado, farmácias e franquias de restaurantes.

 

Pick n Pay, SPAR e Clicks – Redes de supermercado e farmácia tradicionais na África do Sul

Esses novos estabelecimentos passam a fazer parte da nossa vida com era o Carrefour, o Extra, Droga Raia, Drogaria São Paulo (deu saudade agora).

E pra quem passa a morar fora, outras necessidades aparecem com o tempo. Também me habituei com redes de lojas.

Onde vou comprar ou resolver isso e aquilo? Na minha cidade eu sabia exatamente onde ir. Acredite, na sua viagem você irá encontrar também.

Hoje eu não me contento em carregar 2 desodorantes, 2 escovas de dente, 2 shampoos de forma alguma. Me deixa frustrada, a mala não fecha e está sempre pesada demais. Acabou, compro outro. E não tem sentido algum em carregar estoque, espaço ou peso extra. Bem que minha irmã de Londres me avisou quando me viu fazendo a mala com um estoque mínimo… Puro receio, zero sentido.

Hoje vejo como é desnecessário. Mas eu queria garantir minha sobrevivência rumo ao desconhecido! Ter ao menos minha dose de familiaridade, as coisas que me fazem sentir em casa e confortável. Não julgo. Achei útil e necessário. Eu disse: preciso de um tempo. E assim foi.

Temos um apego às nossas coisas e ao que conhecemos. São muitas mudanças, não precisamos ser forçados tão repentinamente. A adaptação é mesmo gradativa. É um desafio muito grande partir. Se o fato de se carregar na bolsa o velho sabonete, ou um ou outro objeto que julgamos ser importante, vai ajudar a sentir mais conforto pra se adaptar, que assim seja. Pois, na realidade, isso acontece. Em alguns momentos de mudanças bruscas, sozinha e em lugares distantes, recorrer à minha mala, às opções ou a velhos hábitos me trouxe chão, conforto e respiro.
Só não podemos esquecer que quanto menos, melhor. No meu caso, saí do Brasil acreditando estar carregando nada além do essencial, mesmo assim deixei algumas pra trás e fui mandando pra casa pelo correio coisas e mais coisas desnecessárias com o passar do tempo. Volumes que achei que ia precisar mas não precisei, compactei. E coisas que precisei até um certo momento mas já não eram mais necessárias. Obviamente que isso gerou um custo, além do risco de nem chegarem “em casa”.
Contrária a todo o movimento do “não precisa levar isso”, não vou mentir que fui feliz enquanto elas estiveram comigo. Precisamos nos respeitar também. Deixar minha casa, família, emprego, país, rotina e até minha antiga personalidade pra trás, pra começar o nomadismo pelo mundo, com todas as limitações que isso trás, requer o suficiente da nossa mente. Pensei: posso adaptar certos hábitos aos poucos. Por hora, ainda dá pra levar comigo. E eu estava certa.

Bom, adaptada agora, sei que é desnecessária a preocupação com estoque e supermercado. Carrego o mínimo necessário e sei que em cada nova cidade há uma nova farmácia, um novo supermercado. E se não houver (como já não houve) seguro as pontas.
Esfoliar o rosto com toalha, pedir cotonete na recepção do hotel, escrever com lápis de olho,  sair atrás de alguém com sabonete sobrando porque o mercado já fechou, precisar de alguma coisa que acabei de mandar embora pra casa, aproveitar desodorante, creme, protetor solar, tênis, secador que mochileiras deixaram pra trás… Bom, acontece!
Ninguém morre por isso, não é a todo momento e não demanda a necessidade de estar demasiadamente preparado pra tudo.

A habilidade de adaptação pode ser bem surpreendente. Não só com o que carregamos na mala, mas no dia a dia:
Lavar roupa no chuveiro, botar pra secar na cadeira, lavar tênis na banheira, usar o tampão do porta malas do carro como colchão, a toalha como travesseiro…
Cozinha:
Limpar frango com faca de pão, cozinhar à luz do celular (e se queimar), acender o fogão com um pedaço de palha, sobreviver na base de comida do Sharing is Caring (que outros hóspedes deixaram pra trás), comer as uvas que eram dos passarinhos e eu não sabia, usar o plástico do pão como prato, reciclar comida dos outros, conseguir inventar um aperitivo novo com tudo que sobrou… 

Lembro o dia que mandei uma foto pra minha mãe com o prato que cozinhei. Ela disse que eu poderia ter colocado coloral pra dar cor no frango. Dei risada.
Carregar coloral na mochila pra dar cor no frango? Eu não vou comer a cor do frango, levo o mínimo indispensável.

Não é que a gente queira desapegar e seja mesmo um poder. É que estamos habituados a usar tantas coisas no nosso dia a dia que achamos que precisamos. Quando elas não estão lá, continuamos vivendo do mesmo jeito e nos viramos.

Não é um poder o desapego, ao menos não por completo. Quando possível, voltamos a usar muitas das coisas de volta. É mais uma adaptação conforme o que está ao alcance no momento.
Entretanto, é bem verdade que simplificamos, consumimos e precisamos de bem menos pra viver depois de experiências assim. Isso é inquestionável. Mesmo voltando a usar, comprar e a consumir, mesmo nos mantendo apegados a algumas preferências, ainda assim é bem menos do que no passado imaginávamos precisar.

Foto Destacada: Internet.

Deixe uma resposta

Booking.com