Currículo (A Nômade Digital Rebelde)

Tempo de leitura: 8 minutos

Manual de como sentir saudade do antigo trabalho: revise seu currículo e leia tudo que você fazia.

Por isso que eu digo que não existe caminho certo e errado nesse mundo. Diferentes escolhas trazem diferentes felicidades. O segredo é tirar o melhor proveito de cada uma. Importante é fazer o que se gosta. Seja no escritório exercendo uma função que te traga orgulho, seja dando a volta ao mundo, seja o que quer que seja, seja feliz. E dê valor ao que se tem, sempre. Amanhã nunca se sabe o que ainda estará aqui e o que não mais.

Eu tenho crédito pra falar, afinal faço parte daquela minoria da população que larga tudo e vai viajar. Que converte o estilo de vida pra trabalhar viajando, a “vida perfeita”. A tendenciosa a balançar a bandeira de saírem do escritório.
Mas eu não conseguiria fazer isso com minha história. Por ter me trazido aqui e porque não acredito que não seja parte de mim, parte do que gosto. Estaria mentindo.

Se dissesse isso sentada no escritório me confrontariam como mais uma confortável, com medo de rumar ao desconhecido e tal e tal. Mas estou aqui. Sou parte do lado que pregam como a bandeira da liberdade. Aqui desse lado, sentada na Namíbia abraçando a tal liberdade eu tenho crédito de dizer:

É uma vida perfeita? Existe muita ilusão. Muitas pessoas nem ao menos sabem o que querem. Se querem mesmo viajar ou se apenas veem nisso a solução pra sua fuga interior. Pra quem quer essa vida, dou forças pra correr atrás como eu fiz. Ela não caiu do céu. Quem quer mesmo viajar sabe como é de verdade. Não existe pote de ouro no final do arco-íris. Qualquer escolha traz felicidades e dificuldades. Aqui é ótimo, mas antes também era. De formas diferentes.
Se EU não tivesse feito isso eu não teria me realizado. Porque eu sabia o que buscava. Você sabe ou só está insatisfeito com sua situação atual? Muitas pessoas não sabem o que buscam, viajar não é solução. Encontrei muito que buscava no caminho até aqui. No caminho. Dentro de mim, não aqui. E, pra mim, minha vida como era antes e como será depois não tem menos importância, menos magnitude e nem menos dignidade.

Tenho um orgulho e felicidade que não cabe em mim com meu projeto, meus resultados, minha marca e com o que estou construindo. Eu não me vejo hoje sem ter tomado essas atitudes e sem ter vivido isso na minha vida. E tenho também orgulho do que veio antes e da minha trajetória até aqui. Tudo que tive ou deixei de ter. Das risadas cercada de colegas nos empregos que mostraram o melhor do meu esforço. E das lágrimas de felicidade admirando uma paisagem ao meu redor que provaram o melhor da minha força de ter chegado aqui. De tudo que meu trabalho carteira assinada (sim, meu trabalho carteira assinada, ele que é tão monstro que todos adoram o salário na conta todo dia 10 e poucos se dispõem a abrir mão) me trouxe e de como o simples observar de um pôr do sol sozinha na África me fez sentir completa.

O título desse texto poderia ser “A Nômade Digital Rebelde”. Não sou rebelde, assumo os benefícios, tanto que estou aqui. O pior problema do trabalho no escritório é a agenda fechada que limita nossa disponibilidade pra muitas outras coisas. Dias passam, meses passam, anos passam e planos vão sendo adiados. Reprimidos, não realizados. Mas não é qualquer pessoa que tem planos que não se encaixam na escala, muitas podem conciliar.
Ser nômade digital não é pra qualquer um, não é um sonho. É real. Ao meu ver não desqualifica outra escolha de vida. Se pra mim vale a pena abdicar de diversos confortos e benefícios pra estar viajando, não significa que pra outras pessoas também valha. É pessoal. Tudo tem seu mérito. Não existe equiparação e muito menos um melhor ou pior.
Talvez eu seja a nômade digital realista. A que aproveita a vida que tem, mas que sabe que o que vale pra mim não vale pra qualquer um. Que reconhece que empregos me trouxeram aqui, tornaram possível começar meu próprio negócio. Que sabe que um emprego pode pagar contas e salvar e não cospe no prato.

Na adolescência me achava diferente porque queria percorrer um caminho diferente do tradicional. Não conseguia misturar minhas vontade com a da maioria das pessoas ao redor. Achava que eu escolhi um caminho diferente e isso fez toda a diferença. Aos 29 anos reli e reli Robert Frost até entender o que ele realmente quis dizer. E como isso batia com o que eu mesma aprendi na estrada, como o novo entendimento do poema teve a ver com o novo entendimento de mim mesma e da vida. E como, pela segunda vez, ele tinha tudo a ver comigo.

Não importa o caminho, eles levam ao mesmo lugar. À felicidade. Destino, caminho certo? Não sei. Numa realidade paralela uma Renata seria hoje coordenadora ou lead, quem sabe gerente num escritório, bancando as viagens nas férias, treinando na academia, dançando, com um namorado, um teto próprio, carro e tão feliz quanto. Vontade de viajar mais sim. Assim como aqui também tenho vontades, poderia ter o carro, o teto, a companhia, o salário…

Then took the other (road), as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

O tapa na cara é pra quem acredita que as escolhas da própria vida valem mais do que a dos outros. Cada um tem direito de preferir o que quiser, de ser quem quiser, de mudar, de se transformar.

Aqui, desse lado, posso dizer: minha maior felicidade não foi ter pego a bifurcação pra vir pra cá. Não foi por ter feito o “certo” que me traria mais felicidade. Foi por ter tido força e determinação na difícil tarefa que foi tentar experimentar cada um dos meus lados. Do desafio que é tentar conciliar cada uma das aflorações da minha personalidade. Tão longes, tão opostas, tão improváveis. Talvez eu não me torne a bailarina que queria, talvez eu tenha sacrificado a evolução da minha carreira, talvez eu não tenha a boa forma e as medalhas de corrida que queria, não tenha aqui o dinheiro que eu gostaria, talvez eu não esteja dedicando minha inteira vida a uma coisa só. Mas experimentei cada uma dessas coisas.
Talvez eu lide com medos e frustrações pelo que não conquistei por inteiro. E se a chance não voltar? Talvez o poema mê dê medo pela ilusão que vivo achando que terei tempo o suficiente de voltar e conquistar cada uma dessas coisas por completo num outro momento.

Oh, I kept the first (road) for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

Mas talvez a ilusão ou a chance de poder deixar pra depois, pra outra fase,  pra outro dia, me faça sobreviver a cada dia. Talvez alguns digam que melhor escolher uma coisa e fazer o melhor, do que não “completar” várias. Mas não me soa mal o fato de não carregar a dúvida de como seria minha vida fazendo isso ou aquilo. Até onde eu teria que ir? Não fui o suficiente? O que é afinal completar? Ter experimentado cada parte de mim não é? Talvez eu me sinta mais inteira por ter tido a oportunidade de experimentar cada pedaço de mim e me entregue ao máximo que pude em cada um.

Sim, sou contra o estado de conforto e de repouso numa situação que não traga felicidade. Mas onde está a felicidade? Não existe manual. Não existe certo e errado. Não deveria existir a briga de razão viagem x trabalho, casal x solteiro, filho x carreira. Isso é pessoal de cada um.
Eu não vou ser a Nômade Digital que diz porque você tem que fazer o mesmo, mas eu vou ser a que diz que você tem que correr atrás do que te realiza! Incentivar não a viajar, mas, através do meu exemplo viajando, do meu Sonho por Terra, a seguir seus próprios sonhos, quaisquer que sejam.

Só cada um de nós pode dizer pelo que o coração pulsa. Não siga ninguém, não idealize formas. Mas sim, faça-o pulsar. À sua maneira.

Referência: The road not taken, Robert Frost.
Imagem Destacada: Arquivo Pessoal

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