Cadê seu namorado?

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Uma crítica às indagações que são (ainda) muito comuns a mulheres viajando sozinhas. Muitas vezes com abordagens intrusivas.

Vamos respeitar mais as escolhas de cada um?


O preconceito com mulheres viajantes ainda existe. É real, comum e frequente. Bem como a cobrança da sociedade pela sequência tradicional da vida: namoro, casamento e filhos. Seja em culturas mais ou menos tradicionais e incluindo o Brasil. As pessoas que seguem esses padrões não são questionadas sobre planos e projetos de vida, mas as que não seguem são frequentemente abordadas. Às vezes de forma sútil, às vezes de forma agressiva.

Não existe certo e errado, são opções ou fases de vida diferentes. Não coloco um perfil acima do outro, cada um é feliz como se escolhe ser. Queira viajar, queira se dedicar ao trabalho ou a uma viagem, estudos, ou filhos. No final, os caminhos levam ao mesmo lugar: a história de nossa vida e felicidade. De minha parte não há posts revolucionários sobre o que cada um tem que fazer, é particular de cada um. Entretanto, a escolha de cada um deveria ser respeitada. Muitas pessoas ainda julgam o lado B e o lado A, principalmente quando se trata de fugir do tradicional.

Mulheres, viajar sozinha ou abdicar do fluxo natural da nossa vida para qualquer projeto pessoal (seja viagem, carreira, ou qualquer outro) trará situações e cobranças na bagagem. Uma pessoa que já comprou sua passagem de ida sozinha com certeza já está preparada pra isso. A maior carga e preparo vem antes dessa decisão. Nem preciso dar forças ou colocar nenhuma mensagem motivacional, sei que cada uma já está pronta e na mesma altura. Mas saibam que sim, essas situações existem, não são teoria e nem coisa do passado.

Por mais esdrúxulas ou má educadas que sejam certas cobranças por parte de estranhos, elas existem. Primeiro que não é da conta deles quantos bebês temos, onde estão nossos namorados ou se temos marido. Segundo que as culturas são extremamente diferentes, não é viável fazer esse tipo de questionamento pra alguém de fora da tua tribo (nem de dentro, diga-se de passagem). E terceiro que não é porque não temos que não significa não querermos, ninguém sabe as lutas internas que temos a cada dia pra alcançar aquilo que buscamos, as coisas que abdicamos, as escolhas que fazemos, o peso de lidar com o que deixamos pra trás ou de lado. Isso torna ingenuamente agressivo esse tipo de questionamento, as pessoas não sabem o que nós pensamos ou o que nós passamos e podem estar criticando algo que nós mesmos nos forçamos a lidar. Ou pode até ser algo que não nos incomoda, mas não significa que devido a esse nosso posicionamento sejamos obrigadas a ficar escutando aqueles que esperam  algo diferente de nós! Desde quando nossa vida é feita pra saciar expectativa alheia, ainda mais de estranhos?

No meu caso, não incomoda o questionamento das escolhas que fiz e do momento que vivo hoje. A gente sabe o que quer. O que incomoda é o fato de estranhos da rua não terem nada com isso. E é absurdo pensarem que intromissões assim de alguma forma imaginária não seriam invasivas.
Quando se faz algo dessa grandeza, como deixar tudo de confortável pra uma jornada incerta pelo mundo, geralmente não se faz em superficialidade. Existe uma certeza e convicção tão firmadas do que é melhor pra nós e do que nos move nesse momento que comentários assim não afetam. Compartilho um, depois o outro e o outro, mostrando que isso existe e o que podem esperar encontrar ou ouvir.

Por outro lado, acredito que ninguém precise gritar uma independência e fortaleza falsas, reprimindo sofrimento interno. Mesmo bem posicionadas com o que queremos, claro que temos momentos de fraquezas, de saudades, incertezas, ansiedade. Faz parte de ser humano. Também aguardamos o momento de encontrar um parceiro nisso tudo (quem joga o sutiã dizendo que não provavelmente está mentindo – não querer e não ter chegado a hora são coisas diferentes). Comentários assim podem acontecer num dia mau, num momento inapropriado e pode gerar tristeza.

Ou seja, a mesma abordagem que não incomoda pode sim encher o saco. Seja pela persistência em si: mesmo o intuito não afetando e estando satisfeitas com nossa posição de vida, o desgosto pelo comportamento falar mais alto; Ou, dependendo da hora, o próprio assunto sim pinicar. Por isso, não sei o que leva pessoas a fazerem isso. Algumas espelham seus próprios receios.

Às vezes comentários assim partem de pessoas que estranham estarmos fora da linha tradicional, se preocupam com estarmos sozinhas e não darmos conta de nós mesmas. Desde andar na rua a tocar a vida. Isso é mais comum, até compreensível. Muitas não querem nada menos que ajudar. Ou apenas se mostram curiosos com a situação e tudo bem.
Mas aquelas que invadem demais nossa privacidade e escolhas com perguntas, ou passam a um ponto de julgamento querendo dizer que o que fazemos está errado,  essas sim trazem toda essa indagação. Como podem passar do ponto de além de ter uma cabeça tão fechada à sua própria realidade ainda quererem impôr isso a qualquer um que passe na rua?

Em outras vezes, e essas são as piores, partem de homens cujos olhos e bocas são podres e carnívoros. Acreditando que “cadê seu namorado?” seja uma aproximação sutil. Não é.
Leia mais sobre esse tipo de abordagem e intromissão no artigo Nós mulheres e a tolerância à pessoas invasivas na viagem.

Onde está seu namorado? Quantos filhos? Você está velha pra não ter namorado. (…)

Não tenho namorado. Sim, eu tenho 29 anos. Não quero filhos hoje. Porque isso os incomoda tanto? Parece que a sociedade se frustra com isso e nos enche de questionamentos mais do que nós mesmas. Não dá pra deixar cada um seguir sua vida?

Não é o fato de estar sozinha. Não é o fato de estar viajando. Essas escolhas trazem outros benefícios que é como conscientemente escolhi. É o lidar com pessoas.

Foto Destacada: ADO, Cidade do Cabo – África do Sul

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